A volatilidade da política dos Estados Unidos levou gestores de recursos a buscarem alternativas ao redor do mundo, impulsionando os títulos locais de países emergentes para seu melhor desempenho no primeiro semestre em 16 anos.
O aumento na demanda por ativos de renda fixa em moedas de mercados emergentes é, em grande parte, o reflexo da queda na confiança no dólar americano, que já despencou quase 11% neste ano — seu pior desempenho desde a década de 1970. As perdas são generalizadas, com o dólar caindo frente a 19 das 23 moedas emergentes mais negociadas, e registrando queda de pelo menos 10% frente a 10 delas.
Como resultado, um índice de dívida local de mercados emergentes registrou retorno superior a 12% no primeiro semestre do ano, segundo dados compilados pela Bloomberg — superando os títulos em moeda forte, que subiram 5,4% no mesmo período. Esses ganhos são os mais fortes para o período desde pelo menos 2009.
— Não acho que ninguém esperava uma fraqueza tão grande do dólar — disse Edwin Gutierrez, chefe de dívida soberana de mercados emergentes na Aberdeen Group Plc. —Achávamos que a dívida em moeda local superaria a em moeda forte, mas não na magnitude em que isso acabou ocorrendo.
O fluxo de recursos tem sido sem precedentes. Fundos de dívida de mercados emergentes já atraíram mais de US$ 21 bilhões neste ano, informou o Bank of America na quarta-feira, citando dados da EPFR Global. Esses fundos registraram entradas de capital nas últimas onze semanas consecutivas, somando US$ 3,1 bilhões apenas na semana encerrada em 2 de julho.
Mais Cortes de Juros
Reforçando ainda mais o argumento estão as perspectivas de cortes nas taxas de juros em países em desenvolvimento, segundo Lewis Jones, gestor de dívida da William Blair Investment Management, em Nova York.
— Esperamos que os bancos centrais emergentes tenham mais espaço para cortar juros, além da continuidade da tendência de enfraquecimento do dólar frente ao euro. Para os investidores europeus, isso pode parecer ainda mais atraente daqui para frente — disse Jones.
As economias da América Latina proporcionaram alguns dos melhores retornos aos investidores, com os títulos locais do México, conhecidos como Mbonos, gerando um ganho de 22%, enquanto alguns títulos do governo brasileiro apresentaram retorno superior a 29%.
Os papéis brasileiros se recuperaram após uma forte liquidação no fim do ano passado, enquanto os investidores apostam que os formuladores de política monetária já encerraram o ciclo de alta dos juros.
— Continuamos investidos em bonos mexicanos, essa operação ainda não acabou para nós — disse Adriana Cristea, gestora sênior de investimentos da Pictet Asset Management, acrescentando que a empresa mantém posições em títulos locais em diversas regiões de mercados emergentes, da América Latina à EMEA (Europa, Oriente Médio e África) e Ásia.
A melhora nos fundamentos econômicos de alguns mercados emergentes também pode trazer novos emissores ao mercado. Gana, maior produtor de ouro da África, planeja retomar as emissões de títulos domésticos no final de 2025, após os custos de empréstimos de curto prazo caírem para o menor nível em três anos.
A redução das tensões entre Israel e Irã também fortalece a atratividade dos títulos locais de países em desenvolvimento.
Apesar da forte valorização, Edwin Gutierrez, da Aberdeen, ainda não pretende realizar lucros com suas posições em dívida local de mercados emergentes. Ele afirmou que suas principais sobreponderações estão na Colômbia, Filipinas e África do Sul.
De forma mais ampla, os investidores preferem Brasil, África do Sul e Turquia, escreveu David Hauner, chefe de estratégia de renda fixa para mercados emergentes globais do BofA, em um relatório publicado em 3 de julho, com base no retorno de clientes.






