Em meio a uma crise que atinge fortemente o setor de relógios de luxo, o mercado de peças seminovas tem se mostrado surpreendentemente resiliente — e até mesmo promissor. Modelos usados de marcas como Rolex e Patek Philippe estão liderando uma recuperação que desafia o momento delicado vivido por fabricantes e varejistas de relógios novos.
Nos últimos anos, a indústria relojoeira enfrentou uma combinação de fatores negativos. As exportações suíças caíram em mercados estratégicos como China, Estados Unidos e Japão. Nos EUA, uma tarifa de importação de 39% sobre relógios suíços tornou os modelos novos significativamente mais caros. A isso se somam o aumento nos custos de produção e a queda na confiança do consumidor de alto padrão.
Enquanto isso, o mercado secundário — ou seja, de relógios usados — cresceu como alternativa prática e mais acessível. Modelos desejados como o Rolex Daytona, o Submariner, o Patek Philippe Aquanaut e o Nautilus passaram a ser vistos não apenas como símbolos de status, mas também como investimentos sólidos e de liquidez relativamente alta. A escassez controlada desses modelos no varejo tradicional impulsionou ainda mais sua valorização no mercado de revenda.
Segundo o Bloomberg Subdial Watch Index — que acompanha os 50 modelos mais negociados no mercado de usados — houve uma valorização de 5,3% apenas no primeiro semestre de 2025. Isso representa uma recuperação significativa após a queda acumulada de cerca de 6% em 2024, quando os preços chegaram ao menor nível dos últimos três anos.
Mesmo marcas tradicionalmente sólidas como Rolex, Patek Philippe e Audemars Piguet sentiram os efeitos do esfriamento do mercado: a Rolex teve uma queda média de 5% em 2024, a Patek Philippe caiu 4% e a Audemars Piguet, 7,5%. No entanto, os dados de 2025 apontam para uma estabilização. No segundo trimestre do ano, o recuo médio foi de apenas 0,3%, o mais baixo desde 2022. Em julho, modelos da Patek registraram uma valorização de 1,5%, enquanto a Rolex teve um crescimento mais modesto de 0,2%.
Essa reversão de tendência não é coincidência. A busca por modelos clássicos no mercado de usados cresceu à medida que os consumidores passaram a ver esses produtos como ativos tangíveis e mais estáveis que investimentos tradicionais. Em um estudo recente, relógios de luxo foram apontados como menos voláteis que imóveis, ações ou renda fixa, com destaque para os modelos da Patek Philippe.
Outro fator determinante é o tempo de espera para adquirir relógios novos. Em muitos casos, a espera pode durar meses — ou até anos — especialmente para modelos muito disputados. O mercado de usados, por outro lado, oferece acesso imediato e, muitas vezes, com valores mais competitivos, mesmo quando em excelente estado de conservação.
Diante desse cenário, plataformas especializadas em revenda e certificação cresceram e se profissionalizaram, oferecendo segurança, autenticidade e garantia ao consumidor. Isso ampliou o alcance do mercado secundário, que antes era restrito a nichos de colecionadores e agora atrai também novos compradores.
Apesar do momento desafiador para o setor como um todo, o mercado de relógios de luxo usados — especialmente os das marcas Rolex e Patek Philippe — surge como uma força estabilizadora. Enquanto os lançamentos perdem tração frente aos altos custos e às barreiras comerciais, os clássicos de sempre seguem girando no pulso de quem busca luxo, valor e inteligência financeira ao mesmo tempo.






