Enquanto os presidentes Donald Trump e Xi Jinping se preparam para se reunir em Washington nesta semana, investidores continuam direcionando recursos tanto para empresas de inteligência artificial dos Estados Unidos quanto para o crescente setor de tecnologia da China. A movimentação mostra que, apesar da disputa entre as duas potências pela liderança em IA, os mercados financeiros ainda permanecem conectados aos dois lados da corrida tecnológica.
O encontro entre Trump e Xi está previsto para 24 de setembro e deve incluir discussões sobre comércio, tarifas, minerais críticos e inteligência artificial. A expectativa é de que os dois governos também avancem em mecanismos de diálogo sobre riscos e segurança da tecnologia, em meio à tentativa de administrar a competição tecnológica sem interromper completamente os fluxos econômicos entre os países.
Dados compilados pela LSEG mostram a dimensão dessa ligação. Bancos de Wall Street participaram como coordenadores de 19 operações de mercado de capitais de empresas chinesas de tecnologia neste ano, movimentando US$ 17,2 bilhões. O valor corresponde a quase 30% de toda a emissão do setor chinês no período.
Ao mesmo tempo, investidores chineses continuam aumentando sua exposição a empresas americanas de tecnologia, especialmente fabricantes de semicondutores. A participação de ações dos Estados Unidos no patrimônio de fundos chineses autorizados a investir no exterior representa quase metade dos cerca de 1 trilhão de yuans, ou aproximadamente US$ 150 bilhões, administrados por esses veículos.
Entre as empresas americanas que receberam maior atenção dos fundos chineses estão fabricantes de chips como Micron Technology, AMD, Sandisk, Lam Research e Applied Materials. Segundo dados compilados pela Sinolink Securities, as posições chinesas nessas companhias cresceram ao longo de 2026, refletindo a busca por exposição ao setor de semicondutores mesmo diante das restrições impostas por Washington.
O fluxo também ocorre no sentido contrário. O valor de rodadas de financiamento de empresas americanas de IA que envolveram investidores da China ou de Hong Kong saltou de aproximadamente US$ 436 milhões em 2023 para cerca de US$ 8,9 bilhões até meados de setembro de 2026, segundo dados da S&P Global Market Intelligence citados pela Reuters.
Essa interdependência ocorre apesar da tentativa dos dois governos de construir cadeias de fornecimento de IA mais independentes. Os Estados Unidos restringem a venda de chips avançados e tecnologias de fabricação de semicondutores para empresas chinesas, enquanto Pequim busca ampliar a produção doméstica e reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros.
Para os investidores, a estratégia tem sido manter exposição aos dois mercados. Uma deterioração significativa das relações entre Washington e Pequim poderia prejudicar empresas, cadeias de fornecimento e investimentos dos dois lados. Por outro lado, uma estabilização das relações poderia favorecer a continuidade dos fluxos de capital e das oportunidades nos setores de tecnologia.
A própria inteligência artificial aparece como um dos temas em que existe, simultaneamente, competição e possibilidade de cooperação. Autoridades americanas e chinesas discutem a criação de canais para troca de informações sobre riscos e incidentes relacionados à IA, enquanto novas conversas entre os dois países sobre segurança da tecnologia também estão previstas.
O mercado acionário chinês já começou a reagir às expectativas em torno desse diálogo. Nesta terça-feira (22), o índice de ações ligadas à inteligência artificial avançou 2,3%, enquanto o Shanghai Composite subiu 0,2% e o CSI 300 ganhou 0,5%. O movimento ocorreu após sinais de continuidade das discussões entre Washington e Pequim sobre segurança de IA.
Nos Estados Unidos, as ações de tecnologia também tiveram desempenho positivo na sessão anterior. A AMD subiu 9,9% e alcançou pela primeira vez valor de mercado de US$ 1 trilhão, enquanto a Nvidia avançou 2,3%. O movimento ocorreu em um ambiente de maior apetite por risco e expectativa de que o encontro entre Trump e Xi possa contribuir para reduzir parte das incertezas comerciais e tecnológicas.
Apesar da aproximação diplomática, a competição pela liderança em inteligência artificial continua. As restrições americanas a chips avançados e os esforços chineses para desenvolver uma cadeia doméstica de semicondutores indicam que a disputa tecnológica permanece estrutural. Para os mercados, o encontro entre Trump e Xi será acompanhado pelo potencial de alterar o equilíbrio entre cooperação, competição e circulação internacional de capital no setor de IA.






