A trajetória da Nvidia, hoje a empresa mais valiosa do planeta, é um exemplo fascinante de como a sobrevivência de uma startup pode ser improvável — e seu sucesso, ainda mais surpreendente.
No livro The Nvidia Way, Tae Kim narra como a empresa, fundada em 1993, conseguiu emergir do incerto e competitivo mercado de chips gráficos, um setor tão volátil que o próprio CEO, Jensen Huang, costumava lembrar à equipe que estavam sempre a 30 dias de falirem. Essa afirmação não era exagero: por boa parte da história da companhia, os recursos financeiros eram escassos e o mercado implacável. Qualquer erro em um projeto de chip poderia ser fatal para a empresa.
Os dois primeiros chips da Nvidia falharam, e a empresa chegou perigosamente perto da falência. Foi então que Jensen, com o pouco dinheiro que restava, apostou tudo em uma nova estratégia: acelerar o desenvolvimento de um terceiro chip antes que faltasse dinheiro até para pagar os salários. De forma surpreendente, esse chip foi um sucesso — e salvou a Nvidia do colapso.
A concorrente dominante na época, a 3dfx, chegou a se preparar para comprar a Nvidia em processo de falência. Em vez disso, a Nvidia cresceu, superou a rival, e anos depois adquiriu as patentes da 3dfx e contratou parte da sua equipe.
Esse padrão de quase desastre seguido de vitórias transformadoras se repetiu ao longo dos anos e moldou profundamente a cultura da empresa. A Nvidia ainda opera como se estivesse em risco constante, refletindo a mentalidade do seu fundador. Jensen Huang é conhecido por seu ritmo intenso de trabalho, enviando e-mails até de férias, e esperando o mesmo comprometimento de seus funcionários. Finais de semana e noites com o estacionamento da sede lotado não eram incomuns.
O estilo de gestão de Jensen é exigente. Ele não poupava críticas duras, muitas vezes feitas publicamente, acreditando que todos poderiam aprender com os erros dos outros. Isso causou desconforto em alguns funcionários e levou talentos a deixarem a empresa. Mas essa abordagem também foi aplicada a si mesmo: “Eu me olho no espelho todo dia e digo ‘você é péssimo’”, chegou a declarar.
Esse “jeito Nvidia” — termo usado por Kim — é, na verdade, a extensão da personalidade de Jensen. A empresa foi moldada por sua visão, obstinação e disposição para correr riscos enormes em momentos de incerteza. Um dos cofundadores chegou a sair em 2000, vendendo sua participação por US$ 30 milhões — fatia que hoje valeria mais de US$ 140 bilhões.
Mesmo após abrir capital em 1999, a Nvidia ainda era vista com desconfiança por investidores. Muitos não viam sentido em apostar em mais uma fabricante de chips gráficos, num setor repleto de fracassos. O que fez a diferença foi Jensen — seu trabalho incansável e sua capacidade de enxergar oportunidades antes de todo mundo.
Ele foi um dos primeiros a entender que o mercado de games para PC superaria o de estações de trabalho. Também vislumbrou que chips gráficos poderiam ser programáveis, como CPUs, e que esse potencial abriria novos horizontes. A Nvidia então criou o conceito de GPU como unidade de processamento geral — uma revolução no setor.
Mais importante, Jensen foi um dos primeiros a perceber que as GPUs tinham um papel-chave a desempenhar na inteligência artificial. O mesmo hardware otimizado para gráficos em jogos também era incrivelmente eficaz para executar os cálculos matriciais usados em redes neurais. Anos antes da popularização da IA, ele já apostava que o “deep learning” seria gigantesco. Em 2013, disse aos executivos: “Temos que mergulhar de cabeça nisso”. Poucos entendiam do que ele falava.
Naquela época, a Nvidia valia US$ 8 bilhões e suas ações estavam estagnadas. Investidores queriam que a empresa gastasse US$ 1 bilhão recomprando ações, achando que não havia mais futuro promissor. Mas Jensen fez o oposto: investiu bilhões em pesquisa, desenvolvimento e estrutura voltada para IA — mesmo sem retorno imediato.
Sem essa aposta ousada e solitária, talvez o fenômeno da IA, incluindo o ChatGPT, não tivesse ocorrido como e quando aconteceu. As GPUs da Nvidia tornaram o aprendizado profundo viável em escala, e só foram desenvolvidas com essa qualidade porque havia alguém como Jensen no comando.
Para Kim, só uma pessoa no mundo poderia ter conduzido a Nvidia até aqui. E não foi um caminho fácil. Mas para que uma startup de chips gráficos se tornasse a empresa mais valiosa do mundo, não havia outra maneira.






