O crescimento dos investimentos em ativos fixos tem apresentado forte divergência entre os setores da economia, com os gastos relacionados à inteligência artificial avançando em ritmo muito superior ao restante das atividades. Na China, dados recentes mostram que o investimento total em ativos fixos recuou 5,7% no primeiro semestre de 2026, enquanto os segmentos ligados à IA mantiveram expansão acelerada.
A diferença fica ainda mais evidente nos dados divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas da China. Entre janeiro e julho, o investimento em ativos fixos caiu 6,7% na comparação anual, enquanto as empresas de internet aumentaram em 81,8% os gastos com equipamentos, em grande parte associados à construção de infraestrutura necessária para inteligência artificial.
Fora do setor tecnológico, o cenário é mais moderado. O investimento da indústria de transformação recuou 1,7% nos primeiros sete meses do ano, enquanto o investimento em infraestrutura caiu 3,6%. Já o setor de mineração registrou alta de 3,3%, mostrando que a expansão dos investimentos permanece bastante desigual entre as diferentes áreas da economia.
A diferença também aparece quando o setor imobiliário é retirado da conta. Mesmo excluindo os investimentos relacionados à propriedade, o investimento em ativos fixos ainda apresentou queda de 3,7% no período. Em contraste, o investimento em transmissão de informação avançou 29,2%, enquanto os gastos com fabricação de circuitos integrados cresceram 11,6%.
O movimento reflete a prioridade dada à infraestrutura digital e às chamadas tecnologias estratégicas. Grandes empresas chinesas de tecnologia vêm ampliando investimentos em data centers, servidores, chips e capacidade computacional para atender à demanda por modelos de IA e serviços de nuvem.
Esse processo também tem impacto sobre a composição do crescimento econômico. Uma análise conjunta de instituições como a Universidade Nacional de Singapura, Harvard e o Kiel Institute apontou que o crescimento chinês no primeiro semestre esteve cada vez mais concentrado em setores ligados à inteligência artificial e a outras áreas consideradas estratégicas, enquanto o investimento em ativos fixos apresentou retração no período.
Nos Estados Unidos, a dinâmica também chama atenção. A expansão dos investimentos privados em infraestrutura de IA tem contribuído para aumentar a demanda por capital e pode exercer pressão sobre os juros de longo prazo. Analistas ouvidos pela Reuters apontam que o chamado R-star, taxa de juros considerada neutra para a economia, pode estar sendo influenciado pelo aumento dos investimentos em IA e pelo elevado nível de endividamento público.
O fenômeno cria, portanto, uma divisão cada vez mais clara entre os investimentos direcionados à economia digital e aqueles destinados aos setores tradicionais. Enquanto empresas de tecnologia ampliam gastos para garantir capacidade computacional, segmentos industriais e de infraestrutura enfrentam um ambiente de crescimento mais contido.
A desaceleração dos investimentos fora da IA também aumenta a atenção dos investidores para a sustentabilidade desse ciclo. A expansão dos gastos com data centers, chips e infraestrutura digital exige volumes elevados de capital e pode manter elevada a demanda por financiamento, mesmo em um cenário no qual outras áreas da economia apresentam menor disposição para investir.
Essa diferença setorial deve continuar sendo acompanhada pelos mercados, principalmente porque os investimentos em inteligência artificial passaram a representar uma parcela cada vez mais relevante da expansão dos gastos corporativos. O desafio para as economias é avaliar até que ponto o forte crescimento da infraestrutura de IA poderá compensar a fraqueza dos investimentos em setores tradicionais e sustentar o crescimento econômico mais amplo.






