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PicPay (PICS): lucro mais que duplica, mas ação sofre queda brusca de 22%; por que descompasso?

Carla Santiago por Carla Santiago
20 de março de 2026
em Investimentos
PicPay (PICS): lucro mais que duplica, mas ação sofre queda brusca de 22%; por que descompasso?

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O primeiro balanço do PicPay (PICS) após a estreia em Nova York até trouxe números fortes — mas isso não foi suficiente para segurar as ações nesta última quinta-feira (19).

Mesmo com lucro em alta, receita crescente e expansão da carteira de crédito acima do esperado, os papéis da fintech despencaram em meio a um cenário global mais adverso.

Por volta das 17h17, as ações PICS caíam 22,49% na Nasdaq, negociadas a US$ 12,27.

O movimento acompanha um pregão marcado por aversão ao risco, tanto no Brasil quanto no exterior, em um dia pressionado pela escalada das tensões no Oriente Médio.

O conflito, que já entra no 20º dia, impulsiona os preços do petróleo e reacende temores inflacionários. Durante a madrugada, o Brent chegou a superar os US$ 119 — um nível que complica ainda mais o trabalho dos bancos centrais ao redor do mundo.

Nesse ambiente, ativos mais sensíveis ao risco tendem a sofrer primeiro — mesmo quando os fundamentos indicam melhora.

PicPay estreia com números fortes na bolsa

Na véspera, o PicPay divulgou seu primeiro resultado como empresa listada — e os números vieram acima do esperado.

O lucro líquido ajustado somou R$ 188,2 milhões no quarto trimestre de 2025, alta de 136% na comparação anual e de 78,6% frente ao trimestre anterior. O resultado ficou 31,5% acima do topo do guidance da própria companhia.

Parte do desempenho foi impulsionada por um crédito tributário não recorrente de R$ 890 milhões, ligado ao reconhecimento de ativos fiscais diferidos. Esse efeito foi parcialmente compensado por R$ 274 milhões em despesas não recorrentes, sem impacto em caixa.

No consolidado de 2025, o lucro atingiu R$ 502 milhões — praticamente o dobro do registrado em 2024.

A rentabilidade também avançou: o ROE ajustado chegou a 24,4%, alta de 5,4 pontos porcentuais na base anual.

Já a receita líquida total somou R$ 3 bilhões no trimestre, crescimento de 69% em um ano e de 10% na comparação trimestral, superando o guidance.

O desempenho foi puxado por maior penetração de crédito, avanço das transações — com destaque para o Pix financiado — e crescimento na venda de seguros.

A base de clientes seguiu em expansão. O PicPay encerrou 2025 com 67 milhões de contas, alta de 11% em um ano. Já os clientes ativos chegaram a 42,7 milhões, ante 39 milhões no ano anterior.

Crédito segue como motor — mas risco entra no radar

Para 2026, a estratégia da companhia segue centrada no crédito, com expansão da carteira, ganho de margem e aumento do cross-sell, além do avanço no segmento de PMEs.

A expectativa é que o crédito represente cerca de 60% da receita, com produtos garantidos respondendo por aproximadamente 25%.

No guidance para o primeiro trimestre, o PicPay projeta lucro líquido de R$ 140 milhões — ou R$ 155 milhões em termos ajustados — e carteira de crédito de R$ 26,5 bilhões, ante R$ 24,1 bilhões no fim de 2025.

A receita total esperada é de R$ 3,15 bilhões, com margem financeira líquida de R$ 1,65 bilhão. O lucro bruto deve alcançar R$ 1,09 bilhão, enquanto o resultado antes de impostos (EBT) é estimado entre R$ 215 milhões e R$ 235 milhões.

Por outro lado, o avanço do crédito traz um alerta.

Em entrevista à Broadcast, o diretor de RI, André Cazotto, afirmou que a inadimplência deve subir “um pouco” nos próximos meses, refletindo a maturação da carteira e mudanças no mix de produtos.

O índice de atrasos acima de 90 dias subiu de 6,0% em setembro para 7,2% em dezembro.

Entre as mudanças, está a desaceleração das originações ligadas ao saque-aniversário do FGTS, impactadas por restrições regulatórias. Em contrapartida, a fintech acelerou o consignado privado, que hoje concentra boa parte das novas concessões.

Atualmente, cerca de dois terços das originações vêm de produtos garantidos, enquanto o restante está concentrado em linhas sem garantia, como cartões.

Analistas veem essa transição como uma mudança relevante na dinâmica da carteira — com menor dependência de um produto específico e maior foco em linhas com melhor retorno ajustado ao risco, ainda que com maior necessidade de provisões.

A aposta do PicPay é que o consignado privado seja o principal motor de crescimento em 2026.

Mercado mantém visão positiva — apesar dos riscos

Na visão do Bank of America (BofA), os resultados reforçam a confiança na capacidade de execução da companhia.

Segundo o banco, o desempenho do 4T25 e o guidance do 1T26 indicam que o PicPay está no caminho para entregar um plano ambicioso, que inclui crescimento de cerca de 100% no lucro líquido em 2026.

O BofA manteve recomendação de compra para as ações.

O Citi também avalia que o balanço marca um início sólido da fintech como empresa listada, com resultados acima das expectativas tanto em lucro quanto em expansão da carteira.

As provisões vieram 10% acima do esperado, enquanto as despesas ficaram praticamente em linha.

Para o banco, o destaque foi a expansão do portfólio de crédito com foco em linhas garantidas.

“A qualidade dos ativos parece sob controle, e o índice de eficiência ajustado segue abaixo de 50%”, destacam os analistas.

O Citi também manteve recomendação de compra, sustentando a tese em um modelo de negócios com spread relevante entre retorno e custo de capital — o que justificaria um valuation mais elevado.

Hoje, o banco projeta múltiplos de cerca de 21,1 vezes lucro para 2026 e 9,1 vezes para 2027.

Ainda assim, os riscos seguem no radar.

Entre os principais pontos de atenção estão a execução da expansão do crédito com qualidade, possíveis mudanças regulatórias, exigências de capital, aumento da concorrência e o impacto cambial — já que a empresa reporta resultados em reais, mas negocia suas ações em dólar.

Tags: Análise de Mercadoinvestimentos

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