O governo dos Estados Unidos passou a condicionar a recomposição da cota brasileira de açúcar à apresentação de propostas comerciais satisfatórias.
O aviso chegou ao governo brasileiro por comunicado enviado nesta semana, depois de Washington ter reduzido, em julho, a alocação do Brasil em 35,9%: um corte equivalente a 55,9 mil toneladas.
A mensagem foi reforçada em público. Em discurso no Simpósio Internacional de Adoçantes, em Vail, no Colorado, Stephen Vaden afirmou ‘expressamente que o Brasil poderá recuperar o volume retirado de sua alocação caso apresente aos Estados Unidos propostas comerciais consideradas satisfatórias’.
Com a mudança, o volume autorizado para venda de açúcar brasileiro com tarifa menor cai de 155,9 mil para 100 mil toneladas a partir de outubro deste ano. As exportações dentro da cota são taxadas em 25%, enquanto as vendas fora dela chegam a sobretaxas de 37,5%.
Volume cortado coincide com o que ficou sem destino
Para a adida agrícola brasileira, Ana Lúcia de Paula Viana, os números indicam o uso da cota como ferramenta de barganha.
‘A coincidência exata entre o volume reduzido da cota brasileira e a quantidade ainda não alocada reforça a percepção de que a medida está sendo utilizada como instrumento de negociação comercial’, escreveu em documento.
Sem um entendimento entre os dois países, as 55,9 mil toneladas retiradas do Brasil podem ser redistribuídas a outros 38 países.
A adidância brasileira solicitou esclarecimentos ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre os critérios da redução.
Na resposta, o USTR informou que ‘não poderia fornecer informações além das constantes no aviso do Federal Register, comprometendo-se a informar eventual mudança’.
Ao defender a posição brasileira, Ana Lúcia lembrou que o país utilizou integralmente sua alocação anterior, ‘demonstrando capacidade de fornecimento, confiabilidade e demanda por parte da indústria norte-americana’.
Tarifas fora da cota também em revisão
Além da cota, o governo Trump avalia elevar as tarifas aplicadas às importações de açúcar acima das cotas tarifárias, atualizadas pela última vez em 2000. Vaden discutiu a revisão com o USTR e o Departamento de Comércio.
Atualmente, as tarifas extracota são de US$ 0,3386 por quilo para o açúcar bruto e US$ 0,3574 por quilo para o refinado, o equivalente a cerca de US$ 340 por tonelada, uma taxação que representa 100% do valor.
O Ministério da Agricultura distribui anualmente os volumes entre empresas nordestinas. A definição das cotas tarifárias de importação de açúcar foi publicada no fim de julho pelo Serviço Agrícola Estrangeiro dos EUA (FAS/USDA), e a distribuição dos volumes coube ao USTR, que cortou as 55,9 mil toneladas do Brasil.
Etanol no pano de fundo
A pressão americana também tem relação com o etanol. Entre 2010 e 2017, a tarifa brasileira sobre o etanol importado dos EUA ficou zerada. Em 2017, o Brasil voltou a aplicar tributação de 20% sobre o produto americano e criou uma cota isenta, que deixou de existir em 2021.
Desde então, Washington pressiona pelo retorno de tratamento privilegiado ao biocombustível americano.
No açúcar, o Brasil segue como fornecedor relevante. Em 2025, o país exportou 437 mil toneladas aos Estados Unidos, sendo 292,4 mil toneladas de açúcar bruto de cana, 132 mil toneladas de refinado e 12,4 mil toneladas de outros tipos.
Até junho de 2026, as vendas somaram 121 mil toneladas, com 87,5 mil de bruto de cana, 33,4 mil de refinado e 55 toneladas de demais açúcares. No ano fiscal de 2025, o Brasil respondeu por quase metade das exportações de açúcar especial.






