A J&F Investimentos escolheu Reynaldo Passanezi, ex-presidente da Cemig, para comandar sua nova frente de energia nuclear, segundo fontes ouvidas pelo Brazil Journal. A contratação marca mais um passo da holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista na tentativa de consolidar sua presença em um dos segmentos mais sensíveis e estratégicos do setor elétrico brasileiro.
Ainda não há uma data definida para o início de Passanezi no novo cargo. Apesar disso, a J&F já decidiu que a operação nuclear terá uma estrutura própria dentro do grupo, separada da Âmbar Energia, empresa que concentra os demais ativos da holding no setor elétrico.
J&F avança sobre o setor nuclear
A entrada da J&F no mercado nuclear ocorreu em outubro de 2025, quando o grupo fechou a compra da fatia da Axia na Eletronuclear. Com a transação, os Batista passaram a dividir a sociedade com o Estado brasileiro na companhia responsável pelas usinas de Angra 1, Angra 2 e Angra 3.
O desenho da operação, no entanto, não dá à J&F o controle da Eletronuclear. Isso porque a Constituição brasileira impede que atividades nucleares fiquem sob comando privado.
Como ficará a participação na Eletronuclear
Com a conclusão da compra da participação da Axia, a J&F passará a deter 67,95% do capital total da Eletronuclear. O controle, porém, seguirá nas mãos do governo federal, por meio da ENBPar, que possui 64,10% das ações com direito a voto.
Essa divisão societária foi definida no processo de privatização da antiga Eletrobras, justamente para preservar o controle estatal sobre a atividade nuclear no país.
Pela transação, a J&F aceitou pagar R$ 535 milhões à Axia. Além disso, o acordo prevê a compra de R$ 2,4 bilhões em debêntures da Eletronuclear.
Quem é Reynaldo Passanezi
Passanezi chega à J&F após deixar a presidência da Cemig, onde permaneceu por seis anos. Antes de assumir a estatal mineira, ele comandou a ISA Energia, empresa de transmissão na qual ficou por sete anos e iniciou sua trajetória como diretor financeiro.
O executivo também passou pelo banco BBVA e integrou o Comitê de Privatizações do Estado de São Paulo entre 1995 e 1999.
Na nova função, Passanezi deverá atuar como o principal rosto público da J&F na relação com o governo dentro da Eletronuclear. Essa interlocução será decisiva, sobretudo em razão das discussões sobre o futuro de Angra 3.
Angra 3 será o maior desafio
O principal ponto de atenção para o novo executivo será a retomada das obras de Angra 3. A usina, iniciada nos anos 1980, foi paralisada em 2015 durante a Operação Lava Jato.
Houve uma retomada parcial em 2022. No entanto, o canteiro voltou a ficar parado e hoje depende de uma decisão de Brasília para avançar.
O projeto já consumiu cerca de R$ 12 bilhões e está 65% concluído. Um estudo do BNDES estimou que seriam necessários mais R$ 24 bilhões para finalizar a obra.
Abandonar a obra também custaria caro
Mesmo a desistência de Angra 3 teria impacto bilionário. Segundo o estudo do BNDES, abandonar o projeto custaria entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.
Esse valor envolveria despesas com descomissionamento de estruturas, além da quitação de financiamentos ligados ao empreendimento.
Por isso, a decisão sobre a usina se tornou um dos principais impasses da agenda nuclear brasileira. De um lado, a conclusão exige novos aportes elevados. Por outro, a paralisação definitiva também traria custos expressivos.
Decisão passará pelo CNPE
A palavra final sobre Angra 3 caberá ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), colegiado formado por diversos ministros e presidido pelo Ministério de Minas e Energia.
O ministro Alexandre Silveira já defendeu em diferentes ocasiões a continuidade do projeto nuclear. Ainda assim, embora o tema tenha chegado à pauta de reuniões do conselho, a deliberação foi adiada até agora.
Âmbar já ganhou peso no setor elétrico
A movimentação no setor nuclear ocorre em meio à expansão da J&F no mercado de energia. Nos últimos anos, o grupo avançou por meio da Âmbar Energia, que realizou uma série de aquisições e esteve entre os principais vencedores do leilão de capacidade de março.
A Âmbar opera termelétricas, pequenas hidrelétricas, usinas solares e um gasoduto. Além disso, controla concessionárias de distribuição no Amazonas e em Roraima.
Agora, com a frente nuclear separada da Âmbar, a J&F amplia sua presença no setor elétrico em uma área que envolve não apenas investimento privado, mas também negociação política, regulação e decisões estratégicas do governo federal.






