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Nos últimos 10 anos, o dólar deixou o CDI “comendo poeira”; saiba o motivo

Carla Santiago por Carla Santiago
7 de setembro de 2026
em Exterior
Nos últimos 10 anos, o dólar deixou o CDI “comendo poeira”; saiba o motivo

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Com o CDI pagando juros de dois dígitos, o investidor brasileiro encontrou poucos motivos para procurar outras alternativas de investimento. Os títulos atrelados ao indicador entregaram retornos expressivos nos últimos anos e continuaram bastante atrativos, mesmo diante da queda da Selic.

Os números ajudam a explicar essa sensação de conforto. Em 10 anos, uma aplicação que oferecesse 120% do CDI, por exemplo, teria acumulado rentabilidade de 171,1%, multiplicando o patrimônio inicial por aproximadamente 2,7 vezes.

Considerando que, no mesmo período, o Ibovespa acumulou retorno de 140,2%, esse investidor poderia facilmente concluir que fez um ótimo negócio.

Mas e se eu te dissesse que, no mesmo período, um investimento no S&P 500 poderia ter rendido três vezes mais do que uma aplicação a 120% do CDI? Nos últimos 10 anos, o índice da bolsa norte-americana acumulou alta de 502,8% em reais.

Em outras palavras, enquanto muitos investidores brasileiros comemoravam os juros elevados da renda fixa, quem tinha parte do patrimônio exposta ao mercado americano encontrou uma oportunidade de retorno muito superior.

Mas o dólar não está perdendo o posto de ‘porto seguro’?

Para quem já investe e acompanha o mercado, uma narrativa ganhou força nos últimos anos: a ideia de que o dólar poderia perder espaço no sistema financeiro internacional. Nesse cenário, dolarizar uma parcela do patrimônio deixaria de fazer sentido.

Contudo, existe uma diferença entre discutir transformações graduais na economia global e ignorar o papel que a moeda americana continua desempenhando no mundo.

Segundo dados apresentados pelo BTG Pactual, 85% das trocas cambiais globais são feitas em dólar. Além disso, 60% dos dólares americanos impressos são utilizados fora dos Estados Unidos.

E olhando para a economia brasileira podemos observar a importância que a moeda ainda exerce: boa parte das despesas domésticas são em dólar. Commodities como café, trigo e petróleo, produtos que influenciam direta ou indiretamente o custo de vida, são cotadas na divisa norte-americana.

Segundo a pesquisa do Centro de Estudos em Finanças da FGV (FGVcef), cerca de 16% a 18% da cesta de consumo dos brasileiros sofre com os impactos da variação cambial. Na prática, isso significa que, mesmo que você não queira, está de alguma forma exposto à moeda americana.

Não importa se você recebe, trabalha e investe exclusivamente em reais: os efeitos das oscilações do dólar impactam diretamente a economia e o poder de compra. O grande problema aqui é que apenas as suas despesas estão sendo influenciadas pela moeda.

E nesse cenário o conforto dos juros de dois dígitos pode ser uma ilusão

Ganhar 14% ao ano parece simples. O dinheiro fica aplicado, os rendimentos aparecem e o patrimônio cresce em números absolutos. Mas rentabilidade nominal e preservação patrimonial não são exatamente a mesma coisa.

Existe um fator que o investidor precisa considerar: quando um título de renda fixa paga 14% ao ano, ele também está refletindo o risco da economia de um país. O Brasil paga juros desse nível porque precisa compensar a inflação mais alta, moeda mais volátil e incerteza fiscal.

Ou seja, os juros elevados do CDI são uma compensação pelo ambiente em que o investidor vive. Entretanto, muitos ficam presos no número 14% e acabam perdendo a oportunidade de diversificar de verdade e de capturar retornos bem acima do indexador.

O que você perde ficando só no Brasil

A primeira coisa que o investidor pode perder ao manter todo o patrimônio concentrado no Brasil está em algo que nem sempre aparece no extrato da corretora: o poder de compra.

Nos últimos 10 anos, por exemplo, R$ 100 perderam 39% do poder de compra, segundo dados apresentados pelo BTG Pactual. Isso acontece por que, no Brasil, os juros costumam ficar em patamar elevado por longos períodos.

Entre 2016 e 2025, a inflação acumulada, medida pelo IPCA, chegou a 64,76%. Para se ter uma ideia, o número é muito maior que o acumulado pelo CPI (índice que mede a inflação nos EUA) no mesmo período (39%).

Além disso, na última década, o dólar valorizou 88% contra o real. Ou seja, a moeda brasileira perdeu poder de compra tanto localmente quanto globalmente.

O segundo ponto é o risco Brasil.

Para muitos investidores, ter renda fixa, renda variável e ações de diferentes setores da bolsa brasileira já é o suficiente para manter uma carteira diversificada. Mas, na prática, não é bem assim.

Quando todo o patrimônio está investido em ativos locais, o risco característico de cada setor até diminui, mas a carteira continua completamente exposta aos fatores que afetam toda economia brasileira. Juros, inflação, volatilidade cambial e acontecimentos políticos podem impactar simultaneamente diferentes classes de ativos.

A diversificação dentro do próprio mercado brasileiro, aliás, pode ser mais limitada do que parece. Os ativos locais tendem a apresentar correlações elevadas entre si. Ou seja, diante de um evento, boa parte das ações brasileiras tendem a apresentar o mesmo movimento, seja ele de alta ou baixa.

E existe ainda uma terceira questão: as oportunidades que simplesmente não existem no mercado brasileiro.

O Brasil representa menos de 2% da economia global. Ainda assim, é comum que investidores brasileiros concentrem a maior parte de seus recursos em ativos locais, especialmente quando é possível encontrar juros de 14% ao ano no CDI.

Contudo, o que muitos não percebem é que, ao se limitarem à renda fixa e à bolsa brasileira, estão basicamente abrindo mão de capturarem os retornos gerados por teses relevantes na economia global.

Segundo os dados apresentados pelo BTG Pactual, grande parte das ações do Ibovespa estão nos setores financeiro, de materiais básicos e energia. Em contrapartida, nos EUA a diversificação entre segmentos é bem maior.

Além disso, estudos de mercado mostram que, na próxima década, os setores que mais devem se valorizar são os de tecnologia e saúde. Na bolsa brasileira, as ações desses segmentos representam 1% e 3% respectivamente, contra 31% e 10% no mercado norte-americano.

Ou seja, ao optar por manter todos os investimentos em reais, o investidor não só está concentrando o risco, como está investindo na “economia do passado”.

Portanto, dolarizar parte da carteira significa abrir espaço para buscar mais retorno, acessar teses de investimento indisponíveis no Brasil e principalmente proteger o valor do seu patrimônio.

Como começar a investir no exterior

Durante muito tempo, investir no exterior parecia algo distante da realidade do investidor brasileiro. Era preciso lidar com processos mais burocráticos, transferências internacionais e plataformas estrangeiras.

Hoje, o acesso ao mercado global se tornou muito mais simples. Muitos investidores inclusive dão os primeiros passos sem sair B3, por meio dos BDRs (Brazilian Depositary Recipts), que são recibos de ações americanas negociadas localmente e dos ETFs (Exchange Trade Funds), fundos de investimento que replicam índices.

Nesses casos, o investidor já tem acesso ao desempenho do mercado de ações global, mas ainda com os recursos em reais. Assim, para quem quer de fato proteger o patrimônio da variação cambial e da inflação doméstica, precisa fazer esses investimentos em moeda forte. Ou seja, enviar o dinheiro para o exterior.

Tags: EUAexteriorinvestimentos

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